Alma chinesa
Por esses dias vi uma notícia animadora: a Great Wall Motors, mais conhecida por aqui como GWM, projetou um motor 4.0, V8, com duplo comando de válvulas, sobrealimentado, todo em alumínio, com os caracóis do turbo dentro do vale, com bancadas dispostas em um ângulo de 90°.
Configuração dos sonhos - molhados - de qualquer entusiasta!
Já seria uma grata supresa essa notícia vinda de qualquer fabricante. É de se surpreender mais ainda quando se leva em conta que a GWM é uma empresa chinesa, justamente o país que mais tem avançado no âmbito dos carros híbridos e elétricos. A própria GWM tem uma presença forte nesse mercado.
Então por que se dar ao trabalho?
Eu tenho uma teoria, baseada apenas no meu achismo (ou seja, o mesmo que nada), sobre como uma marca se torna desejável para o público. Não somente do ponto de vista do consumidor, mas de como ela entra no imaginário do entusiasta.
Fazer um bom carro hoje em dia é "fácil" (muitas e muitas e muitas aspas aqui). Os processos de construção e de controle de qualidade já estão consolidados na indústria. As marcas também não costumam mais experimentar soluções inovadoras, já que a maioria, apostando em uma fórmula pronta, testada e aprovada, acaba usando o layout de carro estabelecido na década de 1960 por Dante Giacosa, engenheiro da Fiat: tração e motor dianteiros, com o motor disposto na transversal e suspensão dianteira do tipo McPherson.
Nesse ponto os chineses, graças a uma política de Estado que incentivou suas marcas a desenvolverem carros eletrificados, até que inovaram (vamos ignorar o fato que o carro elétrico surgiu junto com o carro à combustão, ok?). Tiveram um salto absurdo em termos de qualidade, com uma curva de aprendizado mais curta do que a de japoneses (que iniciaram a exportar seriamente seus carros partir dos anos 1960) e coreanos (a partir dos anos 1980). Já tem alguns anos que carro chinês deixou de ser sinônimo de carro vagabundo.
Mas uma coisa é fazer carros bons. Outra é fazer carros que façam entusiastas sonhar.
Na teoria que mencionei acima, esse salto é desenvolvido quando uma marca se envolve no automobilismo. Seja em campeonatos de turismo, rali, Nascar, endurance, Fórmula 1, não importa: enquanto ela só faz carros bons, eles me parecem ser somente isso: bons.
Demérito nenhum nisso, pelo contrário. Ninguém quer comprar um carro ruim, afinal. Mas... para quem é entusiasta, para quem gosta de carro de verdade, fica faltando aquela pimentinha, aquele borogodó que só um carro oriundo de uma marca com pedigree de corrida tem.
Ou vai me dizer que você não se arrepia quando dirige um Kwid e se imagina ao volante da Williams FW1B? Aquele bólido da F1 que amassou os rivais na temporada de 1992 utilizando motores Renault?
Veja o exemplo da Hyundai: chegou ao Ocidente no final dos anos setenta/início dos oitenta, fazendo carros baratos. Foram melhorando continuamente sua qualidade, primeiro produzindo carros apenas honestos, depois fazendo carros bons, para agora disputarem o topo do mercado. Investiram em qualidade de construção, tecnologia, design. Tudo isso conquistou o consumidor comum. Mas ainda faltava algo, um je ne sais quoi.
Já há alguns anos que a Hyundai vem investindo no automobilismo. Primeiro no rali, depois em campeonatos de turismo, como o BTCC, do Reino Unido, e a nossa Copa HB20 (muito bacana de ver, por sinal!). Já anunciaram sua entrada no mundo dos hipercarros, através da sua marca de luxo, a Genesis, com o GMR-001 competido na WEC a partir do ano que vem. Sem contar que, aqui e acolá, se escuta um burburinho sobre a chegada da marca sul-coreana à F1.
Sim, e essa ladainha toda é para chegar aonde, afinal?
Quando eu vi a notícia do motor V8 da GWM, a primeira coisa que pensei foi hmmmm, isso dava um esportivo legal!
As marcas chinesas crescem a olhos vistos, mas a imensa maioria dos seus modelos são sem sal. Bonitos, contudo muito parecidos entre si. Nada muito marcante. Bons produtos, mas sem personalidade, sem alma.
Então a possibilidade de um novo V8 vir da China não somente surpreende, mas também nos dá a esperança (ao menos me deu) de termos algo realmente entusiasta vindo de lá.
A GWM, assim como a Xiaomi e talvez a GAC, me parece ser uma marca com uma pegada um pouco mais entusiasta. Obviamente não é nenhuma Porsche... mas costumeiramente participa de ralis na China e já, inclusive, esteve em edições do Dakar. Faz sentido, já que submarcas como a Tank produzem modelos off-road que, segundo o que tenho visto e lido pelas internets, são realmente divertidos e parrudos, encarando bem trilhas mais pesadas - a própria GWM organiza algumas em sua terra natal.
Até marca de moto eles lançaram, a Souo! Seu primeiro modelo, a 8, é uma cruiser enorme, de 8 cilindros. Me parece coisa de quem realmente gosta de carro (ou moto).
Então veio o dia 23 de junho de 2025, mais conhecido como ontem, e com, ele a notícia de que a GWM lançará uma marca de carros superesportivos, a ser chamada de “自信汽车”, ou Confidence Auto, para aqueles cujo mandarim anda enferrujado. O anúncio feito por Wei Jianjun, presidente da GWM, de que o grupo está há cinco anos desenvolvendo um superesportivo para brigar não somente com o YangWang U9 da BYD e com o Hyptech SSR da GAC mas também com Ferrari 296 e McLaren Artura foi, ao mesmo tempo, uma grata surpresa e uma boa resposta àquele meu desejo secreto: ver um carro chinês realmente voltado aos gearheads - e com motor à combustão!
E, já que eles querem peitar Ferrari e McLaren, quem sabe daqui a algum tempo não veremos a GWM duelando com elas nas pistas mundo afora? Por que não, né?
Será que tô sonhando demais?








Comentários
Postar um comentário