Sayonara, Godzilla!
Caso você não saiba que carro é esse, te ajudo: eis o Nissan GT-R R35!
Ele é descendente direto de uma linhagem de poderosos esportivos japoneses que teve início nos anos 60, ainda na época da extinta marca Prince.
O primeiro carro da série, o Prince Skyline ALSID-1, foi apresentado no Salão do Automóvel de Tóquio de 1957 e era movido por um motor 1.5, de origem Subaru, rendendo 60 cavalos de potência a 4.400 rpm. A ideia era apenas ser um carro de luxo, sem pretensões esportivas, segundo a marca.

Imagem: Wikimedia Commons / 天然ガス
A realidade começou a mudar a partir da segunda geração do Skyline, lançada em 1963. No ano seguinte um time da Prince (marca que se fundiria com a Nissan poucos anos depois) decidiu inscrever alguns modelos do Skyline GT na prova de GT II, em Suzuka. Não foi fácil chegar lá: para participar da prova de turismo, a Prince precisava produzir e homologar 100 modelos do Skyline GT - e foi exatamente o número de exemplares que a marca conseguiu fazer. O carro, que encontraria em pista modelos com pedigree esportivo muito mais forte, como o temido Porsche 904 Carrera GTS, contava com um motor 2.0 de seis cilindros em linha e carburador triplo, obra do chefe de engenharia da Prince à época, Shinichiro Sakurai. O carro precisou ser estendido em 20 cm, o que afetou o seu equilíbrio, prejudicando severamente seus pneus. Com isso, o carro praticamente não conseguia fazer curvas sem destracionar.
O Skyline deslizava a cada curva. Terrível para os pneus, mas uma blessing in disguise para os pilotos.
Yoshikazu Sunaku naquele dia pilotava o Skyline de nº 39 e logo reconheceu valor naquele sedan de origem humilde. O Skyline chegou a virar Suzuka em 2'47" durante os treinos - até aquele momento, o carro com melhor tempo no circuito. E, ainda que ele não tenha conseguido vencer o 904, cuja velocidade em retas passava dos 250 km/h, o Skyline levou todas as posições entre o segundo e o sexto lugar, com Sunako em P2.
Um feito ainda maior entraria no imaginário popular japonês. Durante a prova, um dos pilotos da Prince, Tetsu Ikuzawa, ultrapassou o 904 pouco antes do hairpin, e, durante uma volta, manteve-se à frente do bólido alemão, encantando não somente aqueles presentes no circuito, mas toda uma nação.
Nascia ali uma lenda nas pistas.
A alcunha Skyline GT-R veio na geração seguinte, a PGC10, lançada em fevereiro de 1969. De lá para cá, foram cinco gerações da sigla Gran Turismo - Racing, além de oito onde a Nissan produziu versões verdadeiramente esportivas do Horizonte (afinal, o que é uma "linha do céu" senão o horizonte? - piada de tiozão, não surtem!) sem o uso do famoso acrônimo. O carro ganhou fama mundialmente dentro das pistas, com a revista australiana Wheels dando ao GT-R 32 o apelido pelo qual ele se tornou conhecido: the Godzilla. Fora das pistas reais o GT-R se tornou um ícone nas telas do cinema, através do filme Velozes e Furiosos, e em jogos de video game como Need for Speed, Forza e Gran Turismo.

Imagem: WhichCar

Imagem: Reddit/needforspeed
Em meados da década de 2000 a Nissan decide desvincular a sigla GT-R do nome Skyline: este continuaria sua evolução como sedan familiar/de luxo, ao passo que o GT-R se tornaria um modelo independente, 100% voltando à esportividade. Lembro que estava no final da minha adolescência quando soube dessa notícia - e contei os dias, meses e anos no aguardo desse lançamento, mesmo sabendo que nem de longe eu teria um (acho que o único outro carro que causou essa mesma sensação em mim foi a Alfa Romeo Giulia, quase dez anos depois).

Imagem: eBay Australia - P.S.: tenho essa edição!
Quando o novíssimo GT-R foi apresentado ao mundo, em 2007, eu babei: não me importava que a imprensa criticasse o carro por ele ser um mastodonte (1.700 kg, peso pesado para época, mas hoje quase um peso-pena!) ou até pelo seu design: para mim ele era o suprassumo do all-conquering esportivo japonês recheado de tecnologia. O motor era o VR38DETT, um V6 biturbo bruto, 480 cv de potência, tração nas quatro rodas, câmbio de dupla embreagem (ok, poderia ter vindo manual...), suspensão ativa... o sonho molhado de qualquer entusiasta. De todas as formas o carro foi sucesso de público e crítica, ganhando diversos prêmios de carro do ano ou de carro esportivo do ano.
E quem não lembra daquela deliciosa disputa com a Porsche para saber quem era o mais rápido no mítico circuito de Nürburgring? Fez 7:38'54 no Nordschleife, para espanto da marca alemã, que quis desacreditar os japoneses. Eles, não se fazendo de rogados, voltaram ao Inferno Verde e baixaram ainda mais o tempo, cravando 7:29'03. Lembro dessa diliça como se tivesse ocorrido hoje!
Vale lembrar que o GT-R conseguiu fazer um tempo ainda menor com a versão Nismo:
Contudo, após 18 anos (Jesus, como tô velho...), o GT-R R35 já não cabe mais no nosso mundo - normas de emissões e segurança o mataram. A Nissan, porém, sabe do peso que o nome carrega e já disse que haverá uma nova geração. Em algum momento até cogitou-se que o novo GT-R fosse 100% elétrico, mas daí seria um vilipêndio. Sabiamente a marca japonesa voltou atrás.
Enquanto isso, resta a memória desse carro magnífico - que nunca dirigi, nem muito menos tive, mas quem ama carros conhece bem esse sentimento.
さようなら、ゴジラ








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